domingo, 3 de janeiro de 2016

Achados Clínicos: Baixa reserva ovariana

Nos meus 35 anos de vida sempre quis ter filhos, porém, como nunca tinha tentado engravidar, sempre supus que biologicamente estava tudo OK. Afinal de contas, meus ciclos menstruais sempre foram regulares, não havia nenhum motivo para que eu desconfiasse de alguma coisa errada. Mesmo assim, em 2015 iniciei as consultas com um ginecologista e fiz uma série de exames para determinar se realmente estava apta para engravidar.

Meus exames de sangue, ultrassom e preventivo deram resultados ótimos, porém houve um resultado que me preocupou desde o momento em que o vi, os valores de FSH pareciam altos demais para a fase do ciclo em que foi feito o exame.

O FSH é um hormônio produzido pela glândula pituitária que fica no cérebro. Este hormônio tem a função de estimular os ovários a produzirem os óvulos. Quando o ovário está com dificuldades para produzir os óvulos, a glândula aumenta a produção do FSH para assim aumentar a produção deles. 

Este exame se realiza comumente no terceiro dia do ciclo menstrual, quando feito neste dia, o normal para uma mulher em plena idade fértil é obter resultados abaixo de 10 Uml, no me caso o resultado foi 19,7 Uml no terceiro dia do ciclo. Este resultado é considerado bastante alto, para se ter uma ideia, uma mulher entrando em menopausa costuma ter resultados entorno de 25 Uml no terceiro dia do ciclo, aos 35 anos, o valor não deveria se aproximar tanto dos 20 Uml.

Obter um resultado tão alto significava que poderia haver uma diminuição de reserva ovariana, ou seja, que meus ovários estão ficando sem óvulos viáveis para serem fecundados e meu organismo estão fazendo um esforço enorme para conseguir produzir óvulos todo mês.

Quando isso acontece, é comum que o organismo não reaja da forma esperada aos remédios indutores da ovulação que são aplicados antes de uma inseminação ou fertilização. Ou seja, mesmo com a estimulação ovariana agressiva, com a utilização de altas dosagens de remédios, o ovário produz poucos óvulos,

Quando finalmente fui a um médico especialista em reprodução humana, mostrei a ele o resultado que havia obtido no teste de FSH, ele me informou que para confirmar se o valor de FSH estava alto realmente por causa de uma diminuição da reserva ovariana, precisaria fazer uma ultrassonografia e contar os folículos que havia nos ovários, seu houvessem entorno de 10, consideraria que a minha reserva estava normal e que eu seria uma boa candidata tanto para inseminação artificial (IA) quanto para fertilização in vitro (FIV).  Já na primeira consulta, então, fizemos o ultrassom para tirar a dúvida.

O resultado do ultrassom não foi animador, o médico contou apenas 3 folículos num ovário e nenhum no outro, a baixa reserva ovariana foi confirmada.

Ter uma reserva ovariana baixa aos 35 anos de idade não é nada comum. A reserva baixa em si não significa necessariamente que eu esteja prestes a entrar em menopausa, mas é um indicativo de que a minha fertilidade está decaindo e que, caso queira ser mãe, o momento é agora, se esperar mais alguns meses, pode ser tarde demais.

A reserva baixa também é um indicativo de que meus ovários não iriam responder bem aos hormônios para induzir a ovulação, para poder realizar uma FIV é necessário ter pelo menos uns 8 óvulos para fertilizar, pois muitos deles morrem antes mesmo de realizar a transferência para o útero. Produzindo apenas 3 folículos, a realização de uma FIV logo de cara, estaria praticamente descartada.

Já a IA precisa de apenas um óvulo para dar certo, se houver um óvulo de boa qualidade a IA tem 25% de chance de funcionar. Por este motivo, decidimos começar o tratamento com uma sequência de 4 inseminações no máximo, caso elas não funcionem, a FIV ficou reservada para uma última tentativa, depois disso tudo, a única opção seria uma FIV com óvulos doados.

Sai da primeira consulta bastante desanimada com o prognóstico, porém pronta para tentar. Na vida é sempre melhor tentar e não conseguir do que se arrepender de nunca ter tentado.



sábado, 2 de janeiro de 2016

Banco de Sêmen

As leis brasileiras são muito restritivas quanto a quem pode doar sêmen e em que circunstâncias. As opções legais para casais de lésbicas ou mulheres solteiras que desejem se submeter a tratamentos de fertilidade são muito poucas.

A lei do Brasil especifica:


-O doador precisa ser anônimo, ou seja, não pode ser um amigo do casal ou da mulher que gestará a criança. 
-O doador não pode ser financeiramente remunerado, pois a venda de órgãos e material biológico é proibida no Brasil.
-A aquisição do sêmen deve ser feita pela clínica em nome da paciente, jamais diretamente por parte da paciente.

Isso deixa muito poucas opções para as futuras mamães que não são casadas com um homem e querem assim mesmo se submeter a tratamentos de fertilidade. A única opção é o Banco de Sêmen.

É muito importante destacar o processo pelo qual as amostras passam quando ficam no Banco de Sêmen. O processo é mais o menos o seguinte:

- Os doadores  se inscrevem para fazer a doação. Eles devem ter entre 18 e 45 anos de idade.
- Posteriormente eles são cuidadosamente selecionados por meio de exames. Eles se apresentam no Banco, colhem uma amostra de sêmen que será analisada para saber se o sêmen é viável para a fertilização oi FIV.
- Depois de serem considerados aptos, os doadores se apresentam para preencher uns questionários e fazer uma coleta de sangue para realizar exames como HIV, Hepatite B e C, Sífilis, HTLV, Tipagem sanguínea, etc.
- Depois disso eles agendam 6 doações feitas normalmente uma por semana ou duas por mês. Essas amostras serão congeladas a baixíssima temperatura (196º C negativos). É importantíssimo destacar que este congelamento não pode ser feito "artesanalmente" em casa na geladeira, a temperatura de um freezer não chega nem próxima da temperatura necessária para não danificar os espermatozoides e o descongelamento é feito por profissionais capacitados e utilizando técnicas e equipamentos especiais, mesmo com todos esses cuidados, 50% dos espermatozoides são perdidos no descongelamento. 
- As amostras doadas passam 6 meses em quarentena e só depois deste tempo o doador +e novamente chamado para uma coleta de sangue, repetição dos exames para finalmente liberar as amostras para doação.

No Brasil, há apenas um banco de sêmen nacional, o Proceed. Existem outros bancos pequenos pertencentes a clínicas particulares, porém o Proceed é o único que atende todo o país. Este banco é, para quem conhece um pouco sobre Bancos de Sêmen, uma alternativa bastante precária. 

É um banco com pouquíssimas amostras (em vários momentos chega a ficar sem amostra nenhuma, é preciso aguardar meses a que tenham novas amostras). As informações fornecidas sobre os doadores são pouquíssimas, eles não investigam o histórico de doenças familiares, não fornecem informações claras sobre a etnia dos doadores, não dão nenhum tipo de descrição física do doador como formato dos olhos, do nariz, tipo de cabelo, etc.

As informações fornecidas sobre o doador se limitam à raça (todos os doadores são classificados como "caucasianos", coisa absurda em se tratando do Brasil, país no qual a população de caucasianos é quase nula). Cor da pele (eles só indicam se a pessoa é branca ou morena, não há nenhum tipo de informação sobre o tipo real de cor da pele). Fator RH e tipo sanguíneo. Cor dos olhos. Altura e peso. Cantor favorito (!!!). Religião (!!!). 

Ou seja, praticamente nenhuma informação verdadeiramente importante sobre os doadores é apresentada na hora da escolha. Os doadores são identificados por um número, você recebe uma lista com 6-7 doadores e tem que escolher alguns em ordem de preferência, na hora da clínica realizar a reserva da amostra, uma dessas amostras escolhidas por você será enviada, não necessariamente a que você escolheu como sendo número 1, a clínica vai te informar qual foi o número que conseguiram reservar, em 3-5 dias a clínica recebe a sua amostra e esta ficará congelada até o dia da utilização.

Os custos para a adquisição de uma amostra do banco Proceed estavam em dezembro de 2015 entorno de R$2.700 reais. 

A alternativa para quem não deseja aquirir uma amostra do banco nacional é recorrer a bancos internacionais como o California Cryobank ou o Fairfax Cryobank que fornecem muitas mais opções de doadores, com perfis completíssimos e detalhadíssimos (incluindo até fotos do doador quando era criança) que incluem informações médicas familiares até de bisavôs em muitos casos. As desvantagens de recorrer a estes bancos são principalmente 3:

- O custo é uns mil e quinhentos reais a mais do que aquirir uma amostra nacional. O frete é caríssimo!
- Apenas uma clínica pode fazer a compra do material, não é permitido que você mesma o compre.
- O envio pode ser extremamente demorado, em alguns casos, a espera pela amostra chega a 6 meses!

Caso desejem, cliquem no nome dos bancos de esperma citados no texto e visitem as páginas deles para conhecê-los melhor.





Diferenças entre a Inseminação Caseira e a Inseminação Artificial


Muitas pessoas quando leem sobre inseminação acreditam que é possível replicar exatamente a Inseminação Artificial (IA) em casa, isto é apenas parcialmente verdadeiro. É possível se inseminar em casa, mas o processo é bem diferente e os resultados também podem ser bastante diferentes.
No caso de mulheres lésbicas (como é meu caso) ou mulheres solteiras que desejam ser mães, algumas destas diferenças são cruciais, explico a seguir alguns pontos a serem considerados:



Inseminação Caseira
Inseminação Artificial
Amostra de Sêmen
-Obtida fresca de um doador.
-Comprada congelada em banco de sêmen.
Quanto tempo pode passar entre a aquisição do sêmen e a inseminação?
- No máximo 2 horas.
- Indeterminado. O sêmen pode ficar congelado por muito tempo.
Tubas
- Precisam estar em perfeito estado, desobstruídas, não pode ser feita em mulheres “ligadas”.
- Precisam estar em perfeito estado, desobstruídas, não pode ser feita em mulheres “ligadas”.
Ovulação
- Ocorre naturalmente. Na maioria dos casos, há liberação de um óvulo por apenas um dos ovários.
- É induzida por medicamentos. O ideal é obter mais folículos que numa ovulação natural.
Probabilidade de gêmeos
- Muito pequena.
- Um pouco maior que no método caseiro, a indução da ovulação pode fazer com que haja a liberação de mais de um óvulo, comumente ambos ovários liberam um óvulo.
Determinação do dia da ovulação
- É calculada a grosso modo, o cálculo é muito mais fácil em mulheres que têm períodos menstruais regulares de 28 dias. Pode ser auxiliada pelo controle da temperatura basal, monitorização via microscópio da cristalização de sais na saliva ou testes de ovulação, porém esta determinação nunca é exata.
- É calculada por uma sequência de ultrassons feitos diariamente (são, no mínimo, 3 ultrassons). A liberação do(s) óvulo(s) é induzida por um medicamento, por tanto, é possível identificar o dia e horário exatos em que a ovulação acontecerá. Este fator faz com que a chance de gravidez seja maior do que numa inseminação caseira.
Profundidade da inseminação
Inseminação Caseira
- O sêmen é depositado com uma seringa (sem agulha!) na vagina da mulher, o mais profundamente possível, porém sempre na vagina. Igual como aconteceria numa relação sexual. O caminho que os espermatozoides precisam percorrer é muito mais longo do que numa inseminação intrauterina.
- O médico introduz um espéculo e deposita o sêmen com uma cânula no fundo do útero, perto das trompas, de forma que os espermatozoides precisem percorrem um caminho muito mais curto para encontrar o óvulo.  Este fato também faz com que as chances de sucesso sejam maiores.
Período pós-inseminação
- A mulher deve ficar alguns minutos em repouso e depois segue a vida normalmente e aguarda entorno de 16 dias para fazer um teste de gravidez.
- A mulher deve ficar alguns minutos em repouso e depois segue a vida normalmente, porém deverá utilizar comprimidos de progesterona para ajudar na fixação e formação inicial do feto, ela tem que aguardar entorno de 16 dias para fazer um teste de gravidez.


As diferenças podem parecer pequenas entre os dois procedimentos, porém elas garantem ao processo feito artificialmente numa clínica uma porcentagem de sucesso bastante maior do que o processo caseiro. As taxas de sucesso da IA são entorno de 25%, enquanto o método caseiro têm entre 10-15% de sucesso. Este último é muito mais indicado para mulheres jovens que têm ciclos menstruais regulares, preferentemente de 28 dias, com ovulações mais facilmente previsíveis. O sucesso do processo depende em grande parte da correta previsão da ovulação.